Tempo Perdido



                Todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou. Por isso vivo intensamente ao teu lado, cada segundo que o relógio me traz, recordando-me de que terei todo o tempo do mundo para te admirar, sem ter de olhar para trás. Todos os dias antes de dormir, lembro do teu olhar intenso sobre o meu, e esqueço do teu reflexo aos poucos enquanto adormeço, lembrando-me que em meus dias tristes, você esteve lá para me dizer "sempre em frente, não temos tempo a perder".
            Éramos tão jovens quando tudo isso começou. Eu havia chegado em casa, descarregado as compras e todas aquelas palavras ruins. Emprego cansativo, rotina angustiante, perguntando-me se todo aquele suor derramado durante o dia, compensava toda a amargura que a noite trazia em nossos pensamentos.
No dia seguinte abri as janelas do nosso quarto, esperando ver o sol em meio a uma manhã tão cinza e sonolenta. Você acordou, e trouxe em teus olhos castanhos, a tempestade perfeita para me manter acordada. Me abraçou forte e disse que naquele dia não haveria cansaço ou rotina, e que logo estaríamos distantes de tudo. Lembrei-te que estávamos atrasados, que logo precisaríamos estar no trabalho. Você chegou mais perto de mim, e disse que por um dia teríamos nosso próprio tempo. Nós seríamos o relógio, nós giraríamos os ponteiros. Me disse que ao menos por um dia, deveríamos parar de dizer a nós mesmos que não temíamos o escuro, sem nunca ousar sair de perto da luz. Eu disse que não tínhamos tempo a perder e você argumentou que nada seria perdido, apenas viveríamos fora do roteiro, e seríamos nós, os escritores de nossa própria história. E desde aquele dia, aquele “único dia”, essa vem sendo nossa vida, talvez porque nunca deixaremos de ser assim, tão jovens.

Crônica escrita com base na música "Tempo Perdido - Legião Urbana"
Por Laura Zw.

Reflexo


  
Seis horas. O que significa que é hora de levantar. “Nem ao menos o Sol está presente, por que eu deveria estar? ” A manhã está quieta e isso incomoda. “Antes da tempestade, a chuva é calma” – sua mãe alertava. Sapatos pretos, calça jeans e a primeira camisa que encontra. “Mais um atraso e será demitido” – disse seu chefe, depois do quinto atraso consecutivo. Chega ao ônibus e senta-se em um dos acentos vagos, desejando poder permanecer o trajeto sem ter de levantar, apenas ficar ali, em seu esconderijo aberto, com a música feliz de seus fones de ouvido contrastando aquele dia nublado.
Logo pensa em cochilar, já que teve mais uma péssima noite de sono, mas com uma típica mente de ansioso, já lhe corrói que alguém doente, cansado, ou até mesmo uma mulher grávida possa aparecer e precisar sentar em meio ao ônibus lotado. Motivado a permanecer de olhos abertos, tenta se distrair lendo as placas de rua e, droga, os óculos. Não podia mais confundir aquelas senhoras. “Eu pareço ter 60 anos” – perguntou a de 30, falando a de 40.
De cabelos bagunçados, chega ao saguão perfeitamente alinhado. “Bom dia, senhora” – diz ele, e logo se dá conta de que, novamente, passará o dia cumprimentando os mesmos rostos de sempre. “Bom dia, rapaz! Que tempestade foi aquela ontem à noite, não é? ” – diz a senhora. Embora que para ele tenha sido somente uma chuva de verão, concorda. Perspectiva. Era nisso que acreditava. Nada de política ou religião, apenas ponto de vista. “Notou algo diferente em mim hoje? ” – perguntou a senhora, esperançosa. “Como não notaria? Estas sempre de roupas coloridas! O que hoje a fez mudar? ”” – perguntou ele, com tom interessado. “Um dos nove gatos da moça do quarto andar faleceu ontem à noite e, já que sempre pegamos o elevador sempre no mesmo horário, não queria parecer insensível, então achei esse vestido preto no fundo do armário e, não é que eu amei? Estou deslumbrante! ” – explicou a senhora, mostrando um sorriso de orelha a orelha, contradizendo a intenção do luto. “Mas olha para você! Não se cansa dessa mesma camisa cinza? ” – perguntou ela, com sorriso sincero. Nisso o rapaz olha ligeiramente para baixo, deixando claro que nem se quer lembrava o que estava vestindo, e percebe tê-la pego sem perceber, e provavelmente feito isso ao longo da semana toda. A senhora ri, e depois da agradável conversa, diz ter de ir embora.
Nisso a mulher sai porta afora, e ele se pergunta qual seria o destino daquela senhora, com olhar sonhador e risada contagiante. Agora, ele deseja apenas trocar os papéis, talvez com aquele homem bem-sucedido do apartamento 74, ou até mesmo com a “louca dos gatos” do décimo andar. Olha para o lado, encara seu reflexo no espelho do corredor e percebe que conhece tudo e todos ao seu redor, o que vestem, o que fazem, os moradores e seus respectivos apartamentos, e todas as placas de rua de sua casa até o prédio onde trabalha. Mas aquele reflexo... não. Ele não reconhece a si mesmo.

Conto escrito por Laura Zw.

Vazio


Se tu escreves o que sente
Sobre teu amor ardente
Que tanto se assemelha
Àquela lua crescente
Ou sobre a dor de cada lágrima
Que cai do teu rosto
Como estrela cadente
Sinto que só me resta
Escrever sobre este vazio
Que mesmo sem ser lua
Ou estrela
Parece ainda maior
Que a galáxia inteira.
-Laura Zw.

Tempestade


Eu sentia e via tudo desabando
Mas nunca admitia
Que o fim estava chegando.

Por mais que eu visse as nuvens escurecerem
A chuva cair com mais intensidade
Negava que viria qualquer tempestade.

Havia também aqueles dias
Onde ela chegava sem avisar
E mesmo me derrubando, insistia em de novo levantar.

O que eu menos esperava
É que anunciando ou não sua vinda
Do mesmo modo, ela chegava.

A diferença é o susto
O medo
E o pavor.

Pois vindo sem aviso
Destruindo sem piedade
Nem a maior barreira, irá amenizar a intensidade.

A época da que sinto saudade
É quando a chuva vinha com vontade
Mas eu era protegida, pela lealdade.

Naquela noite acordei assistindo a tempestade
E até agora o barulho dos trovões
Me assombram com a insanidade.

Hoje palavras são vindas como a brisa
E demonstradas como raios
Contradizendo a calmaria, mostrando a verdade.

Antes o que me diziam era tão certo
Quanto dizer que a chuva cai
E hoje é tão banal, quanto tentar prever todo e qualquer temporal.
-Laura Zw.


Noite

Sentada a beira de um lago, com os pés unidos a água morna
Enquanto os pensamentos que, além de serem rápidos como ventos
Parecem estar ainda mais distantes
Do que qualquer estrela.

Por mais que ame a noite
Sinto como se esta estivesse sem vida, sem cor
Como se por um instante
O céu tivesse perdido seu esplendor.

A lua permanece escondida por trás das nuvens
E subitamente o mesmo ocorre com as estrelas
Que a essa altura
Já me fazem falta.

Sinto como se o que visse fosse uma injustiça
Porque por maior que seja a cobiça
A vontade eminente de brilhar
As nuvens parecem não sentir remorso ao ocultar.

Por uma fração de segundo, me sinto semelhante as estrelas e ao luar
Por mais que queira ser a luz
Em meio a um céu brilhante, esperançoso e radiante
As nuvens estão sempre a me cercar.

Elas me sufocam, tomam minha luz
Impedem-me de ser
De ver
E de ser vista.
-Laura Zw.

Seja a luz



Assim como a Lua
Independente da fase
Ou de todas aquelas partes
Que a escuridão de roubar
Por nada deixe
De brilhar.

-Laura Zw.

Capítulos

E se o que estamos vivendo
For como um daqueles livros
Sem ordem de início meio ou fim
Em que cada estrofe é imprevisível
Sem ordem certa de capítulos
Onde tenhamos de ter paciência
Para captar a essência
E não desistir nas primeiras linhas?
Quem sabe um livro curto, com palavras claras
Ou uma daquelas sagas
Onde são necessárias milhões de palavras?
Nada disso posso eu, afirmar
Porém uma coisa, creio que é certa:
Se sentes que tudo está confuso
E queres jogar este livro para o canto
Desistir por ainda não ter achado o encanto
Que todos dizem sentir da vida
Lembre-se de que um capítulo confuso
Ou uma f(r)ase ruim
Não quer dizer que no fim
Tudo será assim
Talvez sejam necessárias
Algumas palavras tristes
Dolorosas e cortantes
Para uma reviravolta feliz
Inesperada, e eletrizante.
-Laura Zw.

Palavras


Minhas palavras saem de minha boca
Como poeira ao vento
Em uma noite fria de outono
Se misturando entre tantas outras
Folhas e sons.

Não importa o quanto
Precisem ser ouvidas
Terminam por fim
Sempre perdidas
Entre vozes e tons.

-Laura Zw.

Liberto-me

Dançando ao anoitecer
Abraçada pelos ventos
Sentindo o leve toque da chuva
Sobre minha pele quente.

Desejando que aquele momento se eternize
Que os problemas fossem junto com ventar
E permanecessem tão distantes
Quanto o luar.

Com apenas as estrelas a me observar
Liberto-me das angústias
Mesmo que por apenas um instante
Completo, e distante.

-Laura Zw.

Entre o céu e o olhar


            Em meio àquela manhã cinza, a única coisa que parecia ser ainda mais deprimente que o céu, eram meus olhos. Em meio a isso, tentei afagar-me com algum pensamento positivo. Pois bem, o Sol ainda estava lá, em algum lugar, certo? Por mais que escondido entre as nuvens, estava presente.  Se o vento por fim ventasse, eu o veria. E ao ver, ele transformaria os céus. De forma sútil, o faria brilhar novamente. Mas, e quanto a mim? A semelhança entre o céu acinzentando com o meu olhar desesperançoso, mudará quando o céu radiar? Meus olhos irão também se alegrar, ao ver o Sol chegar? Ou continuarão a espreita, contrastando o dia feliz, ao abismo de meu interior?


-Laura Zw.

Talvez



Talvez tudo seja uma questão
De falta de equilíbrio
Entre o exorbitante
E o declínio.

-Laura Zw.