Reflexo


  
Seis horas. O que significa que é hora de levantar. “Nem ao menos o Sol está presente, por que eu deveria estar? ” A manhã está quieta e isso incomoda. “Antes da tempestade, a chuva é calma” – sua mãe alertava. Sapatos pretos, calça jeans e a primeira camisa que encontra. “Mais um atraso e será demitido” – disse seu chefe, depois do quinto atraso consecutivo. Chega ao ônibus e senta-se em um dos acentos vagos, desejando poder permanecer o trajeto sem ter de levantar, apenas ficar ali, em seu esconderijo aberto, com a música feliz de seus fones de ouvido contrastando aquele dia nublado.
Logo pensa em cochilar, já que teve mais uma péssima noite de sono, mas com uma típica mente de ansioso, já lhe corrói que alguém doente, cansado, ou até mesmo uma mulher grávida possa aparecer e precisar sentar em meio ao ônibus lotado. Motivado a permanecer de olhos abertos, tenta se distrair lendo as placas de rua e, droga, os óculos. Não podia mais confundir aquelas senhoras. “Eu pareço ter 60 anos” – perguntou a de 30, falando a de 40.
De cabelos bagunçados, chega ao saguão perfeitamente alinhado. “Bom dia, senhora” – diz ele, e logo se dá conta de que, novamente, passará o dia cumprimentando os mesmos rostos de sempre. “Bom dia, rapaz! Que tempestade foi aquela ontem à noite, não é? ” – diz a senhora. Embora que para ele tenha sido somente uma chuva de verão, concorda. Perspectiva. Era nisso que acreditava. Nada de política ou religião, apenas ponto de vista. “Notou algo diferente em mim hoje? ” – perguntou a senhora, esperançosa. “Como não notaria? Estas sempre de roupas coloridas! O que hoje a fez mudar? ”” – perguntou ele, com tom interessado. “Um dos nove gatos da moça do quarto andar faleceu ontem à noite e, já que sempre pegamos o elevador sempre no mesmo horário, não queria parecer insensível, então achei esse vestido preto no fundo do armário e, não é que eu amei? Estou deslumbrante! ” – explicou a senhora, mostrando um sorriso de orelha a orelha, contradizendo a intenção do luto. “Mas olha para você! Não se cansa dessa mesma camisa cinza? ” – perguntou ela, com sorriso sincero. Nisso o rapaz olha ligeiramente para baixo, deixando claro que nem se quer lembrava o que estava vestindo, e percebe tê-la pego sem perceber, e provavelmente feito isso ao longo da semana toda. A senhora ri, e depois da agradável conversa, diz ter de ir embora.
Nisso a mulher sai porta afora, e ele se pergunta qual seria o destino daquela senhora, com olhar sonhador e risada contagiante. Agora, ele deseja apenas trocar os papéis, talvez com aquele homem bem-sucedido do apartamento 74, ou até mesmo com a “louca dos gatos” do décimo andar. Olha para o lado, encara seu reflexo no espelho do corredor e percebe que conhece tudo e todos ao seu redor, o que vestem, o que fazem, os moradores e seus respectivos apartamentos, e todas as placas de rua de sua casa até o prédio onde trabalha. Mas aquele reflexo... não. Ele não reconhece a si mesmo.
-Laura Zw.

Nenhum comentário:

Postar um comentário